singular. É um lugar que fala com você — nas sombras, nas texturas, na forma como o pavimento sobe-e-desce indelicadamente, na figueira que transcende gerações, nos idosos que jogam dominó, no Mercado Público e seus arredores. Cada dia é como uma janela que se abre a algum acontecimento inesperado.
Quando alguém romantiza uma cidade, consequentemente se refere às clássicas — e por que não clichês — como Paris e Nova Iorque. Não vejo entre os meus conhecidos a paixão pelo centro de Florianópolis da mesma maneira que vejo os comentários relacionados às cidades estrangeiras. A grama do vizinho etcétera. Conheço, no entanto, quem compartilha esse sentimento comigo: a minha esposa.
A internet possibilitou que eu conhecesse Bruna, há quase 12 anos. Em 2014 criei um projeto chamado Trenzalore — podcast e canal no YouTube sobre a série britânica Doctor Who —, que veio a ser a minha válvula de escape para a ardência criativa que queimava em mim. Durante esses anos conheci pessoas, fiz amizades para a vida e desenvolvi relacionamentos. A Bruna foi uma delas, e hoje estamos casados.
É inegável o poder da internet.
Alguns dias atrás estávamos sentados na sala de casa assistindo a um vídeo do arquivo dos anos 2000 no canal da BBC, sobre o crescimento desenfreado dos celulares e, consequentemente, a possibilidade da comunicação quebrar as fronteiras entre os países. À época, a internet se tratava de uma coisa, um objeto que ficava ali, e você acessava. O mundo estava a seu dispor em migalhas muito, mas muito pequenas.
Hoje, nós somos a coisa e a internet é quem nos acessa.
E o que se busca quando a internet não nos concede mais autonomia? Algo a se fazer… fora dela. O mundo, que antes queríamos escapar, agora se tornou um desejo. As tecnologias simplórias e de baixa qualidade, de repente viraram estética. Tocar um CD num diskman que você encontrou no sebo não é mais um incômodo, mas um acesso ao offline. Ver fotografias registradas por uma câmera analógica parece um portal para um mundo fantasioso perdido. Não adianta ter um aparelho que faz tudo e que fotografa na melhor qualidade, se no fundo o que se quer é sentir na pele a textura da vida.

O centro de Florianópolis é o local no qual eu me sinto mais próximo dessa sensação de presença. É lá que as minhas fotografias nascem com mais desespero. Eu consigo sentir as diferentes formas de viver e de ser. É o lugar perfeito para quem quer escrever, para se inspirar, para ver com os olhos de artista um mundo que parece tão comum.
As pessoas conversam e bebem suas cervejas ao som de um samba quase ensurdecedor. Um sábado comum para muitos. O que isso tem de tão importante? Eu diria que tudo.

É por isso que eu busco a arte humana. Eu quero saber os erros e os rabiscos. Eu quero ler uma frase meio estranha e fora do lugar. Eu quero conhecer pessoas que não sabem muito bem o que estão fazendo, mas que no fim das contas chegam lá. Lá sendo qualquer lugar que elas queiram estar. Eu quero ver e ouvir essas histórias, sabendo que por trás de cada conto há um poema — e que nem sempre os poemas precisam rimar.
Quero rejeitar a produção em massa, o fazer por fazer, o conteúdo por conteúdo. Quero encontrar a lentidão no meio do caos. Eu busco a sintonia de olhares — mesmo que de diferentes vivências —, mas que se entendem porque sabem que estão no mesmo barco.

Sardinha em Pó é um projeto de jornalismo cultural com o objetivo de valorizar a cena criativa de Florianópolis — seja gastronômica, exposições de arte e eventos com viés artístico — com um toque especial de literatura.
Minha tarefa como artista, jornalista e produtor cultural é auxiliar a pessoa espectadora a descobrir novos olhares e maneiras de ver o mundo. A partir dessa expansão de referências, podemos construir pontes e fazer o trânsito da cultura fluir ao invés de trancá-lo numa avenida sem fim.
Este projeto nasce com o ritmo que uma boa arte exige: sem pressa e sem algoritmos, mas com carinho, afeto e sensibilidade. Se você é artista, cria sabores ou produz cultura para os olhares dispostos a enxergar um mundo melhor, este espaço também é seu. Vamos conversar? Envie sua pauta, sua história ou seu convite para os contatos a seguir:
[Formulário] Envie sua Maré
Até a próxima maré,
Cardume!




